23 de outubro de 1917

França

Querida Anna,

Escrevo-te para agradecer, e porque tenho saudades tuas, os mantimentos que me enviaste.

Aqui, nas trincheiras, passamos muita fome. Apesar de não nos faltar pão, os outros alimentos foram todos cortados pelos aliados. É sempre o mesmo: pão escuro com mel artificial. Mas não é mau! O pior é a sopa, feita com legumes desidratados ou como lhe chamamos: “arame farpado”! Como têm morrido muitos cavalos, há imensa carne e um naco é suficiente para a sopa saber sofrivelmente bem.

E tu, querida, como estás da tua pneumonia? Eu sei que já passou um ano, mas só pude falar contigo agora. As meninas, como estão na escola?

Só me apetece que me atinjam as pernas para ficar desencartado e ir para casa.

Como se não fosse suficiente, uma agonia enorme massacra-nos quase todos os dias: os piolhos. Quando regressamos das linhas, há grandes banhos de vapor na nossa roupa para os matar. Contudo, os ovos continuam nas axilas: toca a virar a camisa do avesso e queimá-los com o charuto.

Oxalá isto acabe depressa!

Quando me preparava para descer 30 metros para finalmente dormir um pouco nas camaratas, cortei-me na mão e tive que ir à enfermaria. Mais 20 metros para baixo. Graças a deus, não foi nada de grave.

É  implacável o número de homens que perecem com as metralhadoras. Já perdemos o Paul, o Mark, o Carl, o Kurt, o Rudi e, infelizmente, muitos mais.

 Há uns dias, estava impossível andar pelas trincheiras. Que abril águas mil! Outubro tem sido uma desgraça! Tudo inundado, cheio de crateras, lama, cadáveres… Isto é uma carnificina!

Os  marmanjos dos generais, que vivem num castelo a cerca de 15 quilómetros, que das nossas condições e da guerra nada conhecem, fazem de nós as suas marionetas, arriscando milhares de vidas pela sua imprudência e incoerência.

Desculpa não me conseguir sofrear mas uma coisa te digo: apesar do paleio todo que nos chaga a paciência todos os dias, persuadindo-nos a continuar na guerra, eu vou contrafeito.

Tenhamos fé que a guerra acabe amanhã e que eu vos possa ver o mais cedo possível.

Não chores nem contas às nossas filhas. Eu cá me arranjo. Sois vós a última perna da mesa da felicidade e só tenho a dizer que vos amo.

Que nada vos deite abaixo!

Vemo-nos em breve,

Jorge

 

Trabalho realizado por :

Leonor Novais, Nº14 - 9ºD