17 de novembro de 1917

França

Querida família
Tenho muitas saudades vossas! Obrigado pela comida que me enviaram. Todos nós estamos a passar fome e, acreditem quando vos digo que estou farto desta guerra. Já perdi muitos amigos e camaradas.
Os franceses organizaram um ataque com bombas e gases. Estiveram uma semana a bombardear-nos e hoje avançaram. Vimo-los a sair das trincheiras e correr com dificuldade pela terra de ninguém. Quando se aproximaram do arame farpado, pegámos nas metralhadoras e começámos a disparar. Nem foi preciso apontar, foi só varrer!
Isto aqui é pior que o inferno! Nos dias de chuva as trincheiras ficam todas enlameadas e o cheiro dos cadáveres é insuportável. As más condições provocam doenças e não nos conseguimos livrar das pragas de piolhos e carraças. É tudo e mais alguma coisa. Os ratos comem as pessoas mortas. É repugnante! Nos dias de tréguas não temos nada que fazer para passar o tempo a não ser conversar e escrever.
Cada vez que penso nisto chego à conclusão de que esta guerra não serve para nada. Tanto tempo aqui e ainda não avançámos nem um metro. Há uns dias atrás, vi um camarada de pernas para o ar a tentar levar um tiro nos pés para poder voltar para casa. Fiquei pasmado. Tenho ouvido conversas de camaradas meus a dizer que querem desertar. Vamos a ver...
De qualquer forma, estou bem e espero que esta guerra acabe em breve para poder voltar para casa. Espero voltar a ver-vos e, se isso não acontecer, quero que saibam que gosto de vocês mais do que tudo na vida.

Beijos do vosso filho que vos ama,

Adolf

Raúl Luciano, nº18 - 9ºC

Ano lectivo 2013-14