17 de setembro de 1917

França

Meus queridos pais,

Estou vivo.

Estou bem longe de vós. Estou perto da fronteira da Suíça. Sinto a vossa falta.

Recebi  a vossa encomenda, estava mesmo a precisar de comida mais substancial.

No início da guerra apenas fazíamos marchas rápidas. Pela altura do Natal, todavia, fomos para as profundas e lamacentas trincheiras que, apesar de no início terem cantina, camaratas enfermaria, até água canalizada e eletricidade,  ficaram destruídas. Das poucas vezes que comemos, restam os biscoitos secos e carne enlatada para soldados corpulentos e trabalhadores.

Estou na front-line, e sou obrigado a disparar a tudo o que se mova.

Fiz amizades debalde. Quando achámos ter derrotado o inimigo Alemão, fomos para o território neutro, passando pelo arame farpado, mas fomos traídos pela hipotética vitória.

As ratazanas metem-se por todo o lado, nutridas por cadáveres injustiçados.

Piolhos. Sim, piolhos. Na farda, depois de um dia na linha, são supostamente mortos nos vapores mas em vão, apenas charutos acesos acabam com esta imundice.

Apenas os raros banhos quentes me agradam nesta explosão de granadas.

A nostalgia crescente deixa-me arrasado. Enfim.

Entretanto, a Itália entrou e a Rússia saiu.

Quando saímos destas trevas subterrâneas tentamos esquecer a guerra e temos uns bailaricos com comida mais condigna. Menos precária, aliás.

Quem não cumpre as ordens é castigado. Isto é um suplício.

Os gases tóxicos que impregnam o ar e nos fazem usar máscaras são cada vez mais.

É absurdo. Estamos há 3 anos nisto e praticamente na mesma!

Comigo, nalgumas horas que tenho de repouso, descansa a fita que me destes no dia em que parti, levado no meu sonho de defender a pátria. Mas agora penso: “ Quando é que isto acaba? Porquê tanto ódio? Porquê tanta morte? Porquê tantas vidas acabadas por ambições? Porque não a paz? Porque não a fraternidade? Porque não o respeito pelo próximo?

Somos todos humanos. Temos todos os mesmos direitos.

        Assim me despeço.                                                                                     Com amor,

                                                                                                                                  O vosso filho,

                                                                                                                                               Ronald Fly

 

Trabalho realizado por :

Maria Teresa, nº 16 - 9ºD